{"id":474,"date":"2014-09-07T10:49:34","date_gmt":"2014-09-07T18:49:34","guid":{"rendered":"http:\/\/discursodasmidias.com.br\/?p=474"},"modified":"2014-09-11T11:29:22","modified_gmt":"2014-09-11T19:29:22","slug":"o-ciclo-da-revolucao-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/discursodasmidias.com.br\/?p=474","title":{"rendered":"O ciclo da revolu\u00e7\u00e3o burguesa"},"content":{"rendered":"<h2><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h2>O que ocorre com o globalismo, quando o capitalismo ingressa em novo ciclo de expans\u00e3o mundial, \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o burguesa ingressa em novo ciclo, tamb\u00e9m global. Aos poucos, ou de repente, abalam-se os quadros sociais e mentais de refer\u00eancia de uns e outros, em todo o mundo. Todos s\u00e3o desafiados a re-situar-se no novo mapa do mundo<\/h2>\n<div><\/div>\n<p><span class=\"Apple-style-span\">Por Oct\u00e1vio Ianni<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"Apple-style-span\">No s\u00e9culo XXI, muitos est\u00e3o empenhados em compreender e explicar as situa\u00e7\u00f5es, os acontecimentos e as rupturas, assim como as rela\u00e7\u00f5es, os processos e as estruturas que se formam e transformam com a sociedade global; uma sociedade na qual se subsumem as sociedades nacionais, em seus segmentos locais e em seus arranjos regionais. Ocorre que a sociedade global, vista em suas implica\u00e7\u00f5es simultaneamente econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais, demogr\u00e1ficas, religiosas e ling\u00fc\u00edsticas, constitui-se como nova, abrangente e contradit\u00f3ria totalidade, uma forma\u00e7\u00e3o geo-hist\u00f3rica na qual se inserem os territ\u00f3rios e as fronteiras, as ecologias e as biodiversidades, os povos e as na\u00e7\u00f5es, os indiv\u00edduos e as coletividades, os g\u00eaneros e as etnias, as classes sociais e os grupos sociais, as culturas e as civiliza\u00e7\u00f5es. Uma \u201ctotalidade\u201d simultaneamente hist\u00f3rica e te\u00f3rica, ou seja, uma forma\u00e7\u00e3o social e uma categoria que adquirem predomin\u00e2ncia crescente sobre umas e outras forma\u00e7\u00f5es sociais: locais, nacionais e regionais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est\u00e1 em curso o desenvolvimento de um novo ciclo de profundas transforma\u00e7\u00f5es sociais, compreendendo as for\u00e7as produtivas, isto \u00e9, o capital, a tecnologia, a for\u00e7a de trabalho, e divis\u00e3o do trabalho social, o mercado, o planejamento e o monop\u00f3lio da viol\u00eancia; e as \u201crela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o\u201d, isto \u00e9, as institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddico-pol\u00edticas e econ\u00f4mico-financeiras, os poderes do Estado e as organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, o direito internacional, as institui\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 integra\u00e7\u00e3o regional, a m\u00eddia tamb\u00e9m nacional e transnacional, as redes, teias e os sistemas articulando indiv\u00edduos, coletividades, povos, na\u00e7\u00f5es, corpora\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es. Tudo isso envolvendo classes sociais e grupos sociais, g\u00eaneros e etnias, l\u00ednguas e religi\u00f5es. Est\u00e1 em curso, portanto, um novo ciclo de desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o burguesa em escala mundial.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que as revolu\u00e7\u00f5es burguesas sempre transbordaram das fronteiras nacionais. As revolu\u00e7\u00f5es ocorridas na Holanda, Inglaterra e Fran\u00e7a ultrapassaram as fronteiras das metr\u00f3poles, alcan\u00e7ando as respectivas col\u00f4nias, bem como outros povos e na\u00e7\u00f5es em outros continentes. Houve inclusive influ\u00eancias rec\u00edprocas entre as diversas revolu\u00e7\u00f5es. \u00c9 evidente que a revolu\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia das col\u00f4nias brit\u00e2nicas da Nova Inglaterra influenciou a pr\u00f3pria Inglaterra, repercutindo em col\u00f4nias ib\u00e9ricas do Novo Mundo; sem esquecer que aquela revolu\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia foi a primeira batalha de uma longa revolu\u00e7\u00e3o burguesa em curso nos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte durante o s\u00e9culo XIX. As revolu\u00e7\u00f5es \u201cprussiana\u201d, na Alemanha em forma\u00e7\u00e3o, e \u201cpassiva\u201d, na It\u00e1lia em forma\u00e7\u00e3o, bem como a Restaura\u00e7\u00e3o Meiji, no Jap\u00e3o, as tr\u00eas ocorridas nos anos 60 e 70 do s\u00e9culo XIX, repercutiram em vizinhos e em povos mais distantes. Sim, a revolu\u00e7\u00e3o burguesa nacional sempre transborda das fronteiras do pa\u00eds em que ocorre. Inclusive cabe observar que todas inserem-se nas configura\u00e7\u00f5es e nos movimentos dos vastos processos hist\u00f3ricos que se sintetizam nos conceitos de mercantilismo, colonialismo e imperialismo.<\/p>\n<p>O que ocorre com o globalismo, quando o capitalismo ingressa em novo ciclo de expans\u00e3o mundial, \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o burguesa ingressa em novo ciclo, tamb\u00e9m global. Aos poucos, ou de repente, abalam-se os quadros sociais e mentais de refer\u00eancia de uns e outros em todo o mundo. Todos s\u00e3o desafiados a re-situar-se no novo mapa. As for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, em moldes capitalistas, desenvolvem-se intensiva e extensivamente por todo o mundo, rearticulando e fortalecendo as redes e telas sist\u00eamicas; tanto quanto acentuando e generalizando processos de desarticula\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m em escala mundial. Generalizam-se ainda mais os princ\u00edpios do liberalismo criados em \u00e2mbito nacional, agora em \u00e2mbito mundial, nos termos do neoliberalismo. Generalizam-se ainda mais os princ\u00edpios codificados nas express\u00f5es \u201cliberdade\u201d, \u201cigualdade\u201d e \u201cpropriedade\u201d, organizados no \u201ccontrato\u201d, enquanto instituto jur\u00eddico-pol\u00edtico fundamental da sociedade de mercado, burguesa ou capitalista. Desenvolve-se um vasto processo \u201cpedag\u00f3gico\u201d orientado no sentido da difus\u00e3o e reafirma\u00e7\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es entre o \u201cp\u00fablico\u201d e o \u201cprivado\u201d, o \u201clucro\u201de a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d, o \u201cEstado m\u00ednimo\u201d e o \u201cmercado aberto\u201d, a \u201ceconomia emergente\u201d e a \u201cinser\u00e7\u00e3o no mercado mundial\u201d, o \u201cequil\u00edbrio monet\u00e1rio nacional\u201d e o \u201cequil\u00edbrio monet\u00e1rio mundial\u201d; tudo isso monitorizado pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), o Banco Mundial (Bird: Banco Internacional de Reconstru\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento) e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), a sant\u00edssima trindade do capitalismo em geral; tudo isso orquestrado por grande parte da m\u00eddia impressa e eletr\u00f4nica mundial, ela tamb\u00e9m composta por corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. Sob muitos aspectos, portanto, o ciclo do globalismo assinala um novo ciclo das revolu\u00e7\u00f5es burguesas, em escala mundial.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa, quando se fala em mundializa\u00e7\u00e3o, planetariza\u00e7\u00e3o, globaliza\u00e7\u00e3o, globalidade ou globalismo \u00e9 uma ampla e profunda transforma\u00e7\u00e3o geral, envolvendo a economia e a sociedade, a pol\u00edtica e a cultura, a ecologia e a demografia, as l\u00ednguas e as religi\u00f5es. Tudo se abala mais ou menos radicalmente, de modo desigual e tamb\u00e9m contradit\u00f3rio. Tanto \u00e9 assim que ocorrem ressurg\u00eancias de nacionalismo e localismo, reafirma\u00e7\u00e3o de identidades presentes ou pret\u00e9ritas, surtos de xenofobias, etnicismos, racismos e fundamentalismos, n\u00e3o s\u00f3 religiosos como tamb\u00e9m culturais. Em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria, inclusive ao longo dos s\u00e9culos XX e nos in\u00edcios do XXI, o \u201ccristianismo\u201d do Vaticano e o \u201cocidentalismo\u201d europeu e norte-americano t\u00eam sido brutamente fundamentalistas, principalmente quando se associam.<\/p>\n<p>Mais uma vez, reabrem-se os debates sobre a \u201cidentidade\u201d, o \u201coutro, a \u201cdesnacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201cdesterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d, o \u201clugar\u201d, o \u201cterrit\u00f3rio\u201d, a \u201cfronteira\u201d e o \u201cespa\u00e7o\u201d, o \u201cmundo sem fronteiras\u201d, a \u201caldeia global\u201d, a \u201cterra-p\u00e1tria\u201d e \u201cbabel\u201d.<\/p>\n<p>Todos, em todo o mundo, s\u00e3o obrigados a defrontar-se com o desenvolvimento desigual e combinado, a n\u00e3o-contemporaneidade e a transcultura\u00e7\u00e3o. Aos poucos, modificam-se ou dissolvem-se as linhas divis\u00f3rias entre o Ocidente e o Oriente, a \u00c1frica e a Europa, a Am\u00e9rica Latina e a Am\u00e9rica Anglo-sax\u00f4nica, devido \u00e0s migra\u00e7\u00f5es transcontinentais, aos fluxos de mercadorias globais, aos movimentos mundiais de id\u00e9ias, aos eventos art\u00edsticos, esportivos e outros; al\u00e9m da multiplica\u00e7\u00e3o de negocia\u00e7\u00f5es, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito das corpora\u00e7\u00f5es, e das tens\u00f5es, solu\u00e7\u00f5es e irresolu\u00e7\u00f5es. Tudo isso movimentando a m\u00e1quina do mundo.<\/p>\n<p>A rigor, o novo ciclo de globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo, com o qual se forma e desenvolve a sociedade civil mundial, n\u00e3o ocorre ao acaso, como se fora um processo inesperado e cego. Ainda que seja err\u00e1tico e contradit\u00f3rio, tamb\u00e9m revela-se sistem\u00e1tico, combinando teoria e pr\u00e1tica com ideologia. Sim, porque esse novo ciclo de desenvolvimento intensivo e extensivo do capitalismo, em escala mundial, \u00e9 influenciado ou conduzido principalmente pela \u201cburguesia mundial\u201d, que j\u00e1 vinha se desenvolvendo por dentro e por fora dos imperialismos; burguesia mundial essa com a qual se associam membros de outros setores sociais, tamb\u00e9m em curso de transnacionaliza\u00e7\u00e3o. E cabe ressaltar a contribui\u00e7\u00e3o de setores intelectuais diversos, dentre os quais encontram-se economistas, financistas, administradores, t\u00e9cnicos em eletr\u00f4nica, jornalistas, soci\u00f3logos e muitos outros, oriundos das ci\u00eancias sociais e naturais. Formam-se \u201ctecnoestruturas transnacionais\u201d, \u201cthink tanks\u201d cosmopolitas, organiza\u00e7\u00f5es empresariais especializadas em assessorias e consultorias de todos os tipos, inclusive credenciados para diagnosticar e classificar a categoria e confiabilidade de cada pa\u00eds, empresa, corpora\u00e7\u00e3o e conglomera\u00e7\u00e3o, no que se refere ao investimento e \u00e0 lucratividade, \u00e0 previsibilidade e \u00e0 confian\u00e7a presente e futura.1<\/p>\n<p>\u00c9 assim que se abalam mais ou menos radicalmente os quadros sociais e mentais de refer\u00eancia que se haviam desenvolvido sob emblema do nacionalismo, da sociedade nacional, do Estado-Na\u00e7\u00e3o, da \u201cmodernidade-na\u00e7\u00e3o\u201d ou da primeira modernidade. Sob o emblema do globalismo, tanto se recriam quadros sociais e mentais de refer\u00eancia anteriores como se criam novos, surpreendentes, inquietantes ou fascinantes. Formam-se a sociedade civil mundial e as estruturas mundiais de poder, redesenhando o mapa do mundo, quando se redefinem ou declinam soberanias nacionais e emergem as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, de par-em-par com as organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, como os principais porta-vozes das classes dominantes mundiais. S\u00e3o muitas as institui\u00e7\u00f5es e os ideais, as pr\u00e1ticas e os valores que se formam no \u00e2mbito do globalismo, da sociedade civil mundial. Nesse cen\u00e1rio complexo, contradit\u00f3rio e de amplas propor\u00e7\u00f5es, abrem-se outras e novas perspectivas para a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica, a comunica\u00e7\u00e3o e a informa\u00e7\u00e3o, a desterritorializa\u00e7\u00e3o e a miniaturiza\u00e7\u00e3o. Multiplicam-se os \u201cespa\u00e7os\u201d e aceleram-se os \u201ctempos\u201d, em todas as dire\u00e7\u00f5es, em todas as esferas de atividade e imagina\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0s tecnologias eletr\u00f4nicas com as quais se globaliza ainda mais intensa e generalizadamente a globaliza\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o novo palco da hist\u00f3ria, da modernidade-mundo, ou segunda modernidade.<\/p>\n<p>A burguesia n\u00e3o pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o, portanto, todo o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais\u2026 O cont\u00ednuo revolucionar da produ\u00e7\u00e3o, o abalo constante de todas as condi\u00e7\u00f5es sociais, a incerteza e a agita\u00e7\u00e3o eternas distinguem a \u00e9poca burguesa de todas as precedentes. Todas as rela\u00e7\u00f5es fixas e cristalizadas, com seu s\u00e9q\u00fcito de cren\u00e7as e opini\u00f5es tornadas vener\u00e1veis pelo tempo, s\u00e3o dissolvidas, e as novas envelhecem antes mesmo de se consolidarem. Tudo o que \u00e9 s\u00f3lido e est\u00e1vel se volatiliza, tudo o que \u00e9 sagrado \u00e9 profanado, e os homens s\u00e3o finalmente obrigados a encarar com sobriedade e sem ilus\u00f5es sua posi\u00e7\u00e3o na vida, suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas.<\/p>\n<p>\u201cA necessidade de mercados cada vez mais extensos para seus produtos impele a burguesia para todo o globo terrestre. Ela deve estabelecer-se em toda parte, instalar-se em toda parte, criar v\u00ednculos em toda parte. Atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do mercado mundial, a burguesia deu um car\u00e1ter cosmopolita \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao consumo de todos os pa\u00edses. Para grande pesar dos reacion\u00e1rios, retirou debaixo dos p\u00e9s da ind\u00fastria o terreno nacional. As antigas ind\u00fastrias nacionais foram destru\u00eddas e continuam a ser destru\u00eddas a cada dia. S\u00e3o suplantadas por novas ind\u00fastrias, cuja introdu\u00e7\u00e3o se torna uma quest\u00e3o de vida ou morte para todas as na\u00e7\u00f5es civilizadas \u2013 ind\u00fastrias que n\u00e3o mais empregam mat\u00e9rias-primas locais, mas as provenientes das mais remotas regi\u00f5es, e cujos produtos s\u00e3o consumidos n\u00e3o somente no pr\u00f3prio pa\u00eds, mas em todas as partes do mundo\u2026 Em lugar da antiga auto-sufici\u00eancia e do antigo isolamento local e nacional, desenvolve-se em todas as dire\u00e7\u00f5es um interc\u00e2mbio universal, uma universal interdepend\u00eancia das na\u00e7\u00f5es. E isso tanto na produ\u00e7\u00e3o material quanto na intelectual. Os produtos intelectuais de cada na\u00e7\u00e3o tornam-se patrim\u00f4nio comum. A unilateralidade e a estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais imposs\u00edveis, e das numerosas literaturas nacionais e locais forma-se uma literatura mundial.\u201d 2<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que s\u00e3o ainda muitos os que reagem \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, combatendo-a em nome do localismo, nacionalismo e regionalismo, mobilizando inclusive fundamentalismo, xenofobias, etnicismos e racismos, e tamb\u00e9m organizando-se em movimentos \u201cneofascistas\u201d, \u201cneonazistas\u201d, nazifascistas\u201d, em diferentes pa\u00edses e continentes. H\u00e1 ressurg\u00eancias de ideais ou experi\u00eancias pret\u00e9ritas ou nost\u00e1lgicas, nas quais ressoam \u00e9pocas passadas, reminisc\u00eancias de regime ou moldes de vida \u201carqueol\u00f3gicos\u201d.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 s\u00e3o numerosos os indiv\u00edduos e as coletividades, as classes sociais e os grupos sociais que padecem da globaliza\u00e7\u00e3o e, simultaneamente, se conscientizam, organizam, reivindicam e lutam por outra globaliza\u00e7\u00e3o, pela \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o desde baixo\u201d. A\u00ed est\u00e3o as ra\u00edzes do neo-socialismo. A\u00ed est\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es sociais, simultaneamente econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais, sob as quais se recriam os ideais, as organiza\u00e7\u00f5es e as pr\u00e1ticas empenhadas na socializa\u00e7\u00e3o da propriedade e do produto do trabalho coletivo, agora vistos em perspectiva mundial.<br \/>\n\u201cOs manifestantes est\u00e3o realmente unidos contra a atual forma de globaliza\u00e7\u00e3o capitalista\u2026 Os pr\u00f3prios protestos se tornaram movimentos globais e um de seus objetivos mais claros \u00e9 a democratiza\u00e7\u00e3o dos processos globalizadores. N\u00e3o deve ser chamado de movimento antiglobaliza\u00e7\u00e3o. Trata-se de um movimento alternativo de globaliza\u00e7\u00e3o, que quer eliminar desigualdades ente ricos e pobres e expandir as possibilidades de autodetermina\u00e7\u00e3o\u2026 J\u00e1 vemos sementes desse fruto no mar de rostos que se estende das ruas de Seattle \u00e0s de G\u00eanova. Uma das caracter\u00edsticas mais marcantes desses movimentos \u00e9 sua diversidade, sindicalistas ao lado de ecologistas, com sacerdotes e comunistas. Estamos come\u00e7ando a ver o surgimento de uma multid\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 definida por uma identidade isolada, mas que consegue descobrir a comunidade em sua multiplicidade\u201d.3<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o contexto geo-hist\u00f3rico, a forma\u00e7\u00e3o social mundial, o novo palco da hist\u00f3ria, em que muitos se organizam e lutam por uma democracia pol\u00edtica e social, nos moldes do neo-socialismo.<\/p>\n<p>Um socialismo que se enra\u00edza nas diversidades e desigualdades sociais, n\u00e3o s\u00f3 locais, nacionais e regionais, mas principalmente mundiais, enraizando-se tamb\u00e9m na avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das experi\u00eancias socialistas j\u00e1 realizadas em diferentes na\u00e7\u00f5es, ou em curso na China e em Cuba, enraizando-se inclusive nas contribui\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, cient\u00edficas e art\u00edsticas que se multiplicam no Ocidente e no Oriente, na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina, no Caribe e na Oceania, na Am\u00e9rica do Norte e nas diversas Europas.<\/p>\n<p>Vistas assim, em perspectiva ampla e em toda a sua complexidade, a era do globalismo assinala o desenvolvimento de uma nova \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o burguesa mundial. Essa \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o que se desenvolve em v\u00e1rias ocasi\u00f5es e em distintas configura\u00e7\u00f5es. Teve um momento fundamental por dentro e por fora das guerras napole\u00f4nicas, com ra\u00edzes na revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa e na revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica francesa, desdobrando-se no primeiro ciclo hist\u00f3rico de descoloniza\u00e7\u00e3o do Novo Mundo. E teve continuidade por dentro e por fora do imperialismo, em suas vers\u00f5es inglesa, holandesa, francesa, belga, alem\u00e3, russa, japonesa e outras. Na \u00e9poca do globalismo, no entanto, entra em novo ciclo o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o burguesa mundial, por dentro da qual criam-se novas condi\u00e7\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o social, socialistas, esta tamb\u00e9m, enquanto transnacional, ou seja, uma revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/p>\n<p>\u201cO per\u00edodo burgu\u00eas da hist\u00f3ria est\u00e1 chamado a assentar as bases materiais de um novo mundo: desenvolver, de um lado, o interc\u00e2mbio universal, baseado na depend\u00eancia m\u00fatua do g\u00eanero humano, e os meios para realizar esse interc\u00e2mbio, e de outro, desenvolver as for\u00e7as produtivas do homem e transformar a produ\u00e7\u00e3o material num dom\u00ednio cient\u00edfico sobre as for\u00e7as da natureza. A ind\u00fastria e o com\u00e9rcio burgueses v\u00e3o criando essas condi\u00e7\u00f5es materiais de um novo mundo, do mesmo modo que as revolu\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas criavam a superf\u00edcie da Terra.\u201d4<\/p>\n<p>1. Perry Anderson, Balan\u00e7o do Neoliberalismo, Emir Sader e Pablo Gentili (organizadores), P\u00f3s-Neoliberalismo, Paz e Terra, S\u00e3o Paulo, 1995, cap 1, pp. 9-37; Eduardo Rosenzvaig, Neoliberalism, Latin American Perspectivas, vol. 24, n\u00famero 6, novembro 1997, pp. 56-62; Richard J. Barnet e Ronald Muller, Poder Global (A For\u00e7a Incontrol\u00e1vel das Multinacionais), trad. De Ruy Jungmann, Distribuidora Record, Rio de Janeiro, s\/d (edi\u00e7\u00e3o original em ingl\u00eas de 1974); C. Fred Bergstein (Coord.), O Futuro do Com\u00e9rcio Internacional (As Teses de Maidenhead), trad. De Ricardo Stavola Cavaliere e Liane Moraes, Editora da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, Rio de Janeiro, 1979 (edi\u00e7\u00e3o original em ingl\u00eas de 1975); Banco Mundial, Do Plano ao Mercado (Relat\u00f3rio sobre o Desenvolvimento Mundial), Washington, 1996. (subir)<\/p>\n<p>2. Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, trad. De Marco Aur\u00e9lio Nogueira e Leandro Konder, Editora Vozes, Petr\u00f3polis, 1988, pp.69-70; cita\u00e7\u00f5es do cap 1: Burgueses e Prolet\u00e1rios.(subir)<\/p>\n<p>3. Michael Hardt e Antonio Negri, \u201cManifestantes Querem Globaliza\u00e7\u00e3o Alternativa\u201d, Folha de S. Paulo, S\u00e3o Paulo, 21 de julho de 2001, p. B-3. Consultar tamb\u00e9m: Michael Hardt e Antonio Negri, Empire, Harvard University Press, Cambridge, 2000; Samir Amim, Los Desafios de la Mundializa\u00e7\u00e3o, trad. De Marcos Cueva Perus, Siglo Veintiuno Editores, M\u00e9xico, 1996; David Miliband (org.), Reinventando a Esquerda, trad. De Raul Fiker, Editora Unesp, S\u00e3o Paulo, 1997. (subir)<\/p>\n<p>4. Karl Marx, \u201cFuturos Resultados do Dom\u00ednio Brit\u00e2nico na \u00cdndia\u201d, Karl Marx e Friedrich Engels, Textos, 3 vols. Edi\u00e7\u00f5es Sociais, S\u00e3o Paulo, 1977, 3o volume, pp.292-297; cita\u00e7\u00e3o da p. 297. A edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o menciona o tradutor. (subir)<\/p>\n<div><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n\nO que ocorre com o globalismo, quando o capitalismo ingressa em novo ciclo de expans\u00e3o mundial, \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o burguesa ingressa em novo ciclo, &hellip;","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-474","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-academia"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 5.0.1.1 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"description\" content=\"O que ocorre com o globalismo, quando o capitalismo ingressa em novo ciclo de expans\u00e3o mundial, \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o burguesa ingressa em novo ciclo, tamb\u00e9m global. 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