© 2012 sergio

A idéia de peregrinação do “eu” e o ato solidário.

A sociedade moderna mantém em sua crença original, que ao homem é dado por suas virtudes cristãs um apócrifo sentido de fraternidade. Uma espécie de peregrinação da fé e da obrigação humana inserido no “eu” de cada um dos seres viventes.

Esta sensação ancestral do ato ecumênico que move ajudar a outrem.

E ao que parece nos une em peregrinação da fé, assim revelada:

“A idéia de peregrinação parece tão antiga quanto a primeira idéia religiosa do homem – tendo talvez a idade do próprio homem. Peregrinar é andar numa direção, fazendo do meio o fim, do percurso a chegada, da busca da graça o próprio encontro com a Graça. Diz um provérbio antigo que o bom peregrino é aquele que já chegou, antes mesmo de partir.” “O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa – aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa – não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.” “Entre dois caminhos semelhantes, deixo que meus pés façam a escolha. Permitir que o coração ou a cabeça interfiram é pensar que a vontade é onipotente. De um modo misterioso, meus pés sabem mais sobre os caminhos do mundo do que meus pensamentos, porque o corpo tem uma sabedoria que a consciência não possui. Por isso, prefiro ser escolhido a escolher, com o amor de quem não sabe porque ama.” “O caminho de casa tem tudo para ser o mais conhecido, e no entanto é o que menos conhecemos. De tanto percorre-lo distraidamente, não o vemos mais como de fato é, com suas cores e formas, seus sons e PERFUMES. É assim também que agimos com aqueles que dizemos amar: eles estão próximos, com a sua verdade, mas nós estamos cegos pelo hábito de viver.” “De volta a casa, não estamos de volta à rotina enquanto tivermos na alma o gosto da aventura do viajante. O prazer de falar costuma ser maior e mais comum que o prazer de ouvir – e no entanto, quando por algum motivo precisamos ficar calados, descobrimos que quase tudo que dizemos é perfeitamente dispensável e despido de importância. A experiência de reduzir ao mínimo a própria fala pode mostrar resultados surpreendentes – em nosso íntimo e fora de nós. Ainda assim, são poucos os que se aventuram ao silêncio, como são raros os que ousam caminhar na sua direção.” “O sonho de viajar inquieta o espírito do homem quando o essencial em sua vida já foi assegurado. Logo que o alimento, a casa e o repouso foram conquistados, o ser humano volta seus olhos para lugares distantes – que um dia ele viu em sonho ou conheceu de passagem. Aos poucos, vai sendo tecido um paraíso imaginário, que uma vez alcançado oferece todos os seus encantos. Mais difícil será descobrir, talvez, que há um paraíso aqui, que há um estado de serenidade perfeita agora, para quem abre as portas do coração.” “Um grande pensador do nosso tempo disse uma vez que todo homem pode conhecer, dentro de sua casa, tudo aquilo que vale a pena conhecer. A beleza, o amor, o sentido da dor e da morte, a inocência e a culpa – cada pessoa, cada objeto, cada quarto contém o que o mundo lá fora possui. E se alguém deseja viajar por muitos lugares para aprender, talvez fosse bom lembrar antes que quem não vê o mundo inteiro no seu quarto, ou na pessoa a seu lado, não o vê em parte alguma, por mais que procure. A revelação dessa verdade simples pode ser o começo de uma grande mudança.” “O desejo humano de viajar, de percorrer terras e de conhecer continentes, pode levar ao prazer ou ao desencanto, conforme atenda ou não aos nossos sonhos. Mas onde pode ir um homem sem levar consigo tudo o que de fato é, e tudo o que se acostumou a desejar? A verdadeira viagem, a que conserva as paisagens mas modifica o homem, é talvez a única que não deve ser adiada. Nela, o viajante é mais importante do que as terras que percorre, e a partir dela todos os caminhos têm um encanto novo – mesmo os que levam de uma rua a outra, na cidade em que se vive.” “Um dia podemos descobrir que toda viagem é, de algum modo, uma peregrinação em busca de um lugar que é o coração do viajante. Seu destino final é sua realidade interior, mas faz parte do ritual a busca em lugares distantes, onde seu coração sempre vai, desejoso de um encontro que nem sempre acontece.” como nos diz, Luiz Carlos Lisboa,  Livraria Cultura Editora: São Paulo. 2ª edição. 1989, em seu renomado ” A NOVA ERA”.

Mas muito além do feito ou da jornada há um juizo do “eu” que inquestiona os motivos do ato desta busca e nos insere no largo campo da amabilidade humana, no simples ato da fraternidade cristã e da boa prática solidária que nos remete bem além do motivo porquê fazemos.